V – CUIDANDO DO CUIDADOR- PASTORAL-MISSIONAL.

V – CUIDANDO DO CUIDADOR- PASTORAL-MISSIONAL.

Na execução deste projeto, há uma diferença pontual entre Cuidado Integral do Ministro e Cuidado com o Ministro – cuidando do cuidador. O cuidado com o ministro está inserido dentro do cuidado integral, pois este é uma articulação mais ampla que, além de envolver o cuidado com o ministro, implica ainda uma rede global de articulação.

Tomamos como referência teórica, “Modelo da Melhor Prática do Cuidado Missionário”, de Kelly O’Donnell um referencial importantíssimo (vede figura 1), a articulamos um modelo global para o Ministro (pastores e missionários).

Todavia, como fica claro no gráfico, o modelo de O’Donnell fala de uma ação em que a ideia central permanece sobre o IDE para FORA, tendo Cristo na parte mais interna, sob a força propulsora da ação do Espírito Santo na Igreja fazendo discípulos entre todos os povos, tribos, línguas e nações. Então, temos o IDE e FAZEI DISCÍPULOS.


FIGURA 1

Um Modelo da Melhor Prática do Cuidado Missionário[1]

Concordamos plenamente com o modelo Kelly de O’Donnell, e a nossa proposta se situa dentro desta dimensão, entretanto, com outro viés de ação. Podemos dizer que a nossa ideia central permanece sobre o IDE, quer na ação missional quer na atividade pastoral, todavia numa dimensão para DENTRO, tendo Cristo na parte mais externa. Então, temos IDE[2] e CUIDAI. Cuidar diretamente com a demanda do ministro, no processo da escuta e do acolhimento. Neste modelo alguns pontos são relocados, para que, conforme os nossos objetivos, as ações sejam enquadradas sem que se perca o foco do trabalho proposto (vede figura 2).

Assim o set terapêutico[3] será uma ferramenta de trabalho, no sentido mais técnico possível. Tanto do ponto de vista físico-visual, como a disposição dos móveis, cor da pintura das paredes, iluminação, decoração, enfim; como do ponto de vista simbólico, como lugar de escuta e acolhimento, um lugar funcional, de atribuição de sentidos, sustentado pelo sigilo, o respeito. Não acreditamos que o set terapêutico seja um mero laboratório de análise clínica, onde o paciente/cliente/utente é colocado sob a lâmina do microscópio, e o psicoterapeuta está do outro lado, atribuindo sentido a qualquer ato, total e absolutamente neutro. Não acreditamos, pois, que haja uma neutralidade pura.

Como se sabe, subjetivamente, naquilo que constitui o ser, não há nenhuma diferença entre o psicoterapeuta e o paciente/cliente/utente. Roberto Gambini[4] faz uma exposição brilhante no sentido do set terapêutico, comparando-o à um campo arável, onde profissional e paciente/cliente/utente trabalham juntos:

Para mim, o set é um campo arável, onde nós dois plantamos. Trata-se, portanto, de uma agricultura. Essa é, para mim, a melhor metáfora da terapia: uma agricultura. A etimologia latina da palavra “ofício” é opus + facere. Opus, na Antigüidade, significava o trabalho agrícola. Depois, na alquimia, houve o opus alquímico: fazer a obra alquímica. Existe também o opus com o sentido de trabalho ou ritual religioso. Mas, para mim, oficiar significa mexer na terra, na semente, na água, na erva daninha, na planta que dá fruto, na que não dá fruto, no trabalho dos meeiros. O paciente e eu somos meeiros. Nem eu nem ele somos donos da terra. Pode acontecer que ele abandone a lavoura e eu não poderei continuar sozinho. Se eu estiver trabalhando mais do que ele, posso dizer: está muito pesado para mim, você não está fazendo a sua parte. E o que esperamos disso? Que algo cresça! O que é o ofício? É trabalhar com o intangível. É trabalhar com a matéria psíquica que vem expressa através da fala, do olhar, das emoções e dos gestos.

É, pois, sob esta perspectiva que pensamos o set terapêutico como lugar de escuta e acolhimento. Desta forma, para nós, o cuidado integral com o ministro, está situado neste núcleo do processo (veja figura 3). O nosso projeto é pontual. Estaremos a escutar e acolher, não porque simplesmente queremos fazer isto, mas porque existe uma demanda, pulsante, na alma de milhares de homens e mulheres, que se deixam gastar pela obra do Senhor, que estão querendo falar e serem acolhidos. Estamos, então, dizendo para o Senhor da seara: “eis-nos aqui”: use os nossos dons, talentos, capacidade e habilidades.

Para nós, este set terapêutico não diz respeito somente ao local, enquanto consultório, mas, também, ao local em enquanto geografia, enquanto cidade, pois, a nossa leitura se faz a parte de uma visão bioecológica, nomeadamente, a parte da visão do Teoria Ecológica Desenvolvimento Humano de Brofenbrenner. Por isto, considerando a nossa proposta, que implica este “descolar” do sujeito do seu contexto onde, em hipótese, é o seu ambiente estressor, precisamos reconfigurar o espaço ambiental, não só na questão do set terapêutico enquanto consultório, mas, também, enquanto cidade. Portanto, ao nosso ver, temos quatro cidades, em outras, no caso do Brasil, que podem ser este set terapêutico-cidade: Campos do Jordão-SP, Gramados-RS, São Joaquim-SC e Gravatá-PE. Escolhemos Gravatá-PE por vários fatores.

Portanto, este fator set “terapêutico-cidade” faz parte da arquitetura teórica, como elemento de deslocamento na perspectiva do cronossistema, dentro do MEAM.

É, estão, na fala que se tem todo material de trabalho. Pois, se há um lugar de escuta, para que este se sustente, deve haver alguém que fala de algum lugar. Pensamos ser esta a questão chave dentro do processo: alguém que fala de algum lugar. A pergunta hipotética é: de que lugar fala o ministro do evangelho (pastores e missionários)? Quais os caminhos, vales, labirintos, espaços, esquecimentos, recalques, história, estória, fantasmática parental, trama familiar, projeções, resistências, consciente, inconscientes, infância, homem interior e exterior, espiritualidade, religiosidade, afetividade, experiência espiritual, sentido de conversão, etc.? Qual é a fala? De quem é a fala?

FIGURA 2

Um Modelo para o Escuta e Acolhimento de Ministros – MEAM


[1] 2000© – Kelly O’Donnell e Dave Pollock – Cuidado Integral do Missionário. Londrina: Descoberta, 2004, p.34.

[2] Quer no sentido missional, quer no sentido pastoral.

[3] É interessante que o termo setting tem vários sentidos que refletem a realidade da escuta e do acolhimento: cenário, colocação, montagem, ajustamento, afinação, consolidação, solidificação.

[4] Fonte: http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/436/artigo123458-2.htm. Acesso 03/06/11


IV – SIGNIFICADO DA LOGOMARCA <><><><><><> 5.1. Articulando o – MEAM

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